sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Diário de Viagem – Bonn, Alemanha - UNFCCC Conferência-Quadro de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas 27 e 28 de setembro

Vinte e sete e vinte e oito de setembro de 2038. Na sede da UNFCCC comemora-se mais um aniversário do Tratado Mundial do Clima, assinado em 2015. O grupo de trabalho responsável pela avaliação e monitoramento do trabalho das Entidades Operacionais Designadas (EODs) reúne-se para comemorar seus vinte e cinco anos de atividade. Muitos ainda fazem parte da “primeira turma” e é sempre um prazer estarmos juntos. Hoje fizemos um passeio no tempo e chegamos à reunião de 27-28 de setembro de 2011. Este foi o quinto workshop em dois anos e estávamos todos nos lembrando das dificuldades que passamos naquele período, quando ainda não tínhamos ideia de como seria tratada a questão das metas pós-Kyoto.  Naquele período ninguém entendia bem qual era o nosso trabalho e resolvemos repassar aquele encontro e o quanto ele foi importante para que chegássemos até aqui. Os créditos de carbono resultados dos mecanismos de flexibilização de Kyoto são dinheiro. E como tal, precisam ser apropriadamente fiscalizados. Nosso grupo surgiu do volume de problemas relacionados a projetos aprovados pelas EODs que não eram registrados pelo Comitê Executivo da Conferência-Quadro de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (UNFCCC) ou eram registrados, mas mal-monitorados, não conseguiam obter os créditos referentes aos períodos cumpridos. Nosso trabalho é garantir que os créditos de carbono concedidos sejam confiáveis, como o dinheiro deve ser.
P.S.: também demos muitas risadas ao lembrar que, no dia 26 de setembro de 2011 houve um acidente de tram (que é um bonde). Para nós, brasileiros, seria coisa de cinco minutos, emendar os fios de qualquer jeito e vamos lá moçada! Aqui, foi o ponto alto do verão. A cidade parou e, de cinco em cinco minutos uma voz nas estações avisava o que aconteceria nas próximas horas e que tipo de providência estava senso tomada.  Até televisão teve!   


quarta-feira, 14 de setembro de 2011


Biomimética.  Soluções que buscam inspiração na Natureza.  As diotomáceas produzem vidro, utilizando apenas água do mar.  E é também utilizando a água do mar que a lula produz plástico.  Nos últimos 3,8 bilhões de anos a Natureza vem desenvolvendo suas soluções elegantes e simples.  Naturalmente, o lixo não existe. Nos últimos anos, inspirados cientistas vêm buscando copiar a Natureza e o fazem com muita propriedade.  O velcro, as pás de moinhos, as roupas dos nadadores. Soluções biomiméticas. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2011


“Na entrevista anexa, podemos ver que Claudio Tieghi sabe bem o que é greenwashing.  O problema é que o público em geral usa constantemente o termo sustentabilidade para explicar ações voltadas à ecologia. Ainda que não intencional, esta é uma espécie de greenwashing, pois sustentabilidade -em português- define a capacidade de algo ou alguém que se suporta, que tem como se sustentar.  Ou seja, um lixão é sustentável, pois tem a concessão do município e recebe dinheiro para recolher o lixo. Sem que tome qualquer providência para tornar seu processo menos agressivo à Natureza. Ecossustentabilidade. Algo ou alguém que tem a capacidade de se sustentar em harmonia com o ambiente  em que opera. Na Natureza não existe lixo. Tudo o que é dejeto de um organismo é alimento para outro. Nossa língua é riquíssima. Façamos o melhor uso dela expressando-nos com clareza e conhecimento de causa.”
Patrizia Tomasi

O que leva uma empresa ao 'greenwashing'?
A competitividade no mercado, muitas vezes caracterizada pela guerra de preços e associada à corrupção, deixa um rastro insustentável por onde passa
Por Claudio Tieghi*

É impressionante como, em nosso cotidiano, assimilamos termos, geralmente em inglês, para classificar ou muitas vezes explicar aquilo que ainda é novo. Pode até ser algo que já faz parte do dia a dia, mas, dito em outro idioma, o conceito ganha maior importância.

Para a expressão “greenwashing” não é diferente. A tradução remete a algo como ecobranqueamento ou alvejamento ecológico, que nada mais é do que empresas ou governos utilizando estratégias de marketing para seduzir a opinião pública. Eles buscam reconhecimento por suas “práticas socioambientais”, deixando a sensação de que estão cuidando de tudo.

Mas o que leva uma empresa a agir assim? A competitividade no mercado nacional e internacional, muitas vezes caracterizada pela guerra de preços e associada à corrupção, deixa um rastro insustentável por onde passa. Durante anos, agimos de forma inconsciente – e estamos pagando um preço alto por isso.

O desenvolvimento de uma nova mentalidade para criarmos produtos e serviços sustentáveis exige um real enfrentamento das realidades, com uma boa dose de otimismo e inovação. O fato é que não podemos nos servir de estratégias como a “externalidade de custos”, como nos fala Daniel Goleman, autor do livro A Inteligência Ecológica. Segundo ele, todo produto tem uma “etiqueta oculta”, que não é computada no preço final. E, muitas vezes, quem paga é o meio ambiente.

A expressão "greenwashing" passa a ficar mais clara quando entendemos que a conquista do reconhecimento público é lícita, desde que a comunicação desenvolvida por governos ou empresas não tente mascarar as verdades que envolvem produtos e serviços. Agir de forma intencional, nesse sentido, passa a ser uma questão ética e, na maioria das vezes, legal.

Quando surgem escândalos aqui ou acolá sobre empresas flagradas por transgredirem as leis sociais ou ambientais, nos perguntamos como tal evento foi possível. Tudo pode parecer elementar, mas não é. Temos visto recorrentemente empresas sob os holofotes da lei por falta de gerenciamento e controle de seus fornecedores ou distribuidores.

A corresponsabilidade é fator-chave de sucesso para empresas que queiram prosperar dentro da nova economia. Podem até ter feito a lição de casa internamente e, assim, conquistado o coração de seus clientes, mas a responsabilidade social empresarial exige mais.

Tudo ainda pode parecer algo que flui do maior para o menor, ou seja, partir da grande empresa, que pressiona e comanda a sua cadeia de relacionamentos. Proponho aqui uma leitura inversa, para destacar a força do empreendedor e o seu poder de influência em suas comunidades locais. Afinal, as pequenas empresas têm maior agilidade e capacidade de adaptação e estão constantemente em contato com o consumidor, vivenciando no dia a dia as suas reais demandas.

A pesquisa Responsabilidade Social da Empresas – Percepção do Consumidor Brasileiro, divulgada pelo Instituto Akatu, revelou, entre outros itens importantes, que esse mesmo consumidor não está disposto, como no passado recente, a pagar mais por produtos ou serviços socialmente responsáveis.

Tal posicionamento deixa claro que o consumidor quer ver as bases da sustentabilidade muito bem estabelecidas entre o setor privado e os governos, e que a ele cabe manifestar a sua cidadania também no ato de consumo, sem ter que arcar com o ônus desse processo. Cabe então ao empreendedor aliar-se efetivamente ao consumidor e à comunidade local em atitudes e projetos socioambientais. Ele deve estabelecer uma comunicação clara e verdadeira e exigir que governos e grandes empresas também o façam, de forma integrada e a favor de todos.

*Claudio Tieghi é presidente da Associação Franquia Sustentável (Afras) e diretor de Responsabilidade Social do grupo Multi Holding
Fonte: Pequenas Empresas Grandes Negócios

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

“Se você estiver interessado em aprofundar seus conhecimentos Herman Daly certamente será um excelente referencial. A entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos pelo professor e ex economista-chefe do departamento ambiental do Banco Mundial nos apresenta uma felicíssima combinação de conhecimento sobre ecossustentabilidade. Por parte deste ilustre senhor de 93 anos, claro. Mas surpreendentemente, a jornalista Graziela Wohlfart, demonstra um domínio poucas vezes encontrado até mesmo pelos ditos especialistas no assunto, na formulação das questões. Certamente, foi a inteligência, clareza e conhecimento de Graziela que levaram Daly a responder as questões apresentadas via e-mail. Não deixe de ler a matéria anexa e preste atenção nos detalhes. Graziela não fala em sustentabilidade, mas sustentabilidade ecológica; em nenhum momento categoriza que o aquecimento global é antrópico; demonstra claramente que conhece a diferença entre poluição e emissões de gases de efeito-estufa. As respostas de Daly são desafiadoras, inteligentes, coerentes. O que, com sua experiência de vida, certamente valida suas opiniões para muito mais do que somente questões ambientais.  Mas quem realmente impressionou-me foi Graziela.”
Patrízia Tomasi

  
O guru da economia ecológica e pensador na área do desenvolvimento sustentável, Herman Daly, defende na entrevista que é possível imaginar um mundo com prosperidade sem desenvolvimento econômico. “Certamente podemos viver num nível próspero sem necessidade de que o nível de prosperidade aumente de modo contínuo”, disse o especialista de 93 anos.
O economista dos Estados Unidos é professor emérito da Escola de Política Pública de College Park, nos Estados Unidos. Foi economista-chefe no Departamento Ambiental do Banco Mundial, onde auxiliou a desenvolver princípios políticos básicos relacionados ao desenvolvimento sustentável.
1) Em sua opinião, é possível haver crescimento econômico mantendo a sustentabilidade ecológica?
Herman Daly
– Não. Não a longo prazo. A economia é um subsistema do ecossistema, e o ecossistema é finito, não cresce e é materialmente fechado. Temos um fluxo contínuo de energia solar entrante, mas que também não está aumentando.
2) Podemos imaginar um mundo com prosperidade sem crescimento econômico?
HD
– Sim. Certamente podemos viver num nível próspero sem necessidade de que o nível de prosperidade aumente de modo contínuo.
3) Como define o conceito de “crescimento deseconômico”?
HD
- O crescimento deseconômico é um crescimento que começou a custar mais do que vale – um crescimento, seja em volume de produção ou PIB [Produto Interno Bruto], para o qual os custos adicionais, incluindo os custos ambientais e sociais, são maiores do que os benefícios adicionais em termos de produção.
4) O senhor conhece o conceito de decrescimento, defendido por Serge Latouche? Em que sentido ele se relaciona com o conceito de “crescimento deseconômico”?
HD
- Suponho que decrescimento seja a correção para o fato de se ter tido um período de crescimento deseconômico – ou de ter crescido além da escala ótima da economia em relação ao ecossistema.
A escola do decrescimento reconhece que a escala atual da economia é grande demais para se manter num estado estacionário. Por conseguinte, precisamos decrescer até chegar a uma escala sustentável que, então, procuramos manter num estado estacionário. O decrescimento, assim como o crescimento, não pode ser um processo permanente.
5) Como se aplicaria no cenário mundial atual o conceito de estado estacionário?
HD
- Se nem o crescimento nem o decrescimento são sustentáveis, isso deixa o estado estacionário como único candidato. Mas nem mesmo um estado estacionário pode durar para sempre num mundo entrópico, de modo que o objetivo é a longevidade, e não a vida eterna neste mundo. Os países ricos precisam dar os primeiros passos rumo a um estado estacionário, liberando espaço ecológico para que os países pobres cresçam até atingir um nível de prosperidade suficiente para uma vida boa – o mesmo objetivo que todos os países deveriam tentar alcançar.
6) Como o senhor entende e define o que se chama hoje de economia de baixo carbono?
HD -
Ela significa nos desacostumar dos combustíveis fósseis, mas poderia significar dependência da energia solar, como eu gostaria que acontecesse, ou também de energia nuclear, como defendem outros.
7) Qual a importância, na sua visão, de iniciativas como o IPCC (1988), o Protocolo de Kyoto (1997) e a Convenção do Clima (1992) no sentido de promover a economia de baixo carbono? Essas convenções têm algum impacto na prática?
HD
- Até agora elas foram uma decepção, porque não se confrontaram com a questão do crescimento versus estado estacionário. Aceitam o contexto do crescimento e evitam a discussão a respeito da economia do estado estacionário.
8) Quais seriam as grandes transformações estruturais que as economias e as sociedades teriam que fazer para a passagem a uma economia de baixo carbono?
HD
- Elas precisam adotar o paradigma do estado estacionário e esquecer o crescimento contínuo.
9) Que análise o senhor faz da crise financeira mundial atual? Que rumos o senhor vislumbra e que mudanças vê surgir?
HD
- Vejo a crise financeira como decorrência de se tentar forçar o crescimento para além dos limites físicos e econômicos. À medida que o crescimento fica fisicamente mais difícil, tentamos continuar crescendo em termos monetários, financeiros emitindo montanhas de títulos da dívida e tratando isso como se fosse crescimento real – supondo que toda essa dívida venha a ser saldada pelo crescimento futuro. Nos EUA, atualmente 40% de todos os lucros são obtidos no setor financeiro – o setor financeiro se tornou um parasita.
10) Uma crise financeira como a que vivemos justifica o descaso ambiental e a tomada de medidas restritivas radicais, com emissão de poluentes, como único meio de sair do cenário sombrio, ou é justamente um momento que favorece uma mudança no paradigma econômico, como oportunidade para se pensar em alternativas no sentido da economia de baixo carbono?
HD
– Certamente a opção seria a segunda, não a primeira.
11) Uma economia de baixo carbono abriria quais novas possibilidades para a sociedade, que sairia da economia baseada em combustíveis fósseis? Bastaria mudar as estruturas externas ou seria exigida uma metamorfose dos sujeitos, como sugere Edgar Morin?
HD
- Se isso significa conversão, uma mudança do coração e da mente, então, sim, acho que é necessário, mas não suficiente sem políticas públicas para um estado estacionário.
12) Que oportunidades e dificuldades surgem para o Brasil e outros países emergentes com a economia de baixo carbono?
HD
- O mesmo vale para todos os países – um planeta em que se possa viver durante muito tempo em vez de todos se darem mal juntos.
13) Que relação o senhor estabelece entre economia e felicidade?
HD
- O PIB e a felicidade estão correlacionados positivamente até um certo limiar de suficiência. Para além dele, o PIB não parece aumentar a felicidade, mas continua a causar problemas ambientais.
14) Quais as implicações de uma sociedade em que o crescimento econômico não dá conta da dimensão subjetiva do ser humano?
HD
- Creio que o crescimento realmente não satisfaz mais as verdadeiras necessidades humanas de comunidade, bons relacionamentos e paz. Uma economia calcada no crescimento leva à guerra por recursos e território.
(Entrevista orginalmente publicada no IHU On-line e reproduzida no Mercado Ético em 18 de agosto deste ano)
“Sugiro veementemente a leitura desta matéria, mas não consigo ser imparcial quando o assunto são as populações indígenas brasileiras. Desde que tive a sorte de participar da Expedição Ajuricaba, com o Sydney Possuelo, a minha relação com os índios é absolutamente especial. Estes admiráveis seres vivem em absoluta harmonia com a Natureza; consideram os impactos que suas ações poderão causar à sétima geração, à partir das suas; sabem instintivamente qual o caminho a seguir.  Sempre. Se um índio apresentar uma proposta relacionada à preservação da Natureza, pode seguir sem pestanejar.  Eles sabem do que estão falando.”
Patrizia Tomasi

Leia esta notícia interessante sobre Almir Suruí, eleito líder do primeiro parlamento indígena do Brasil, cuja atuação se destaca internacionalmente. Com a preocupação da gestão do território indígena aliada à defesa da floresta em pé, os Suruís elaboraram um plano estratégico para os próximos 50 anos e já firmaram parcerias com entidades privadas, como a Google, além da criação do Fundo Carbono Suruí, que tem como base o sequestro de carbono e a comercialização de créditos de carbono, que em um futuro próximo destinará recursos nacionais e estrangeiros para os índios. 
Um Indígena Visionário
A articulação de um povo que habita a terra indígena Sete de Setembro tem à frente o líder Almir Suruí, eleito líder do primeiro parlamento indígena do Brasil, cuja atuação se destaca internacionalmente. Com a preocupação da gestão do território indígena aliada à defesa da floresta em pé, os Suruís elaboraram um plano estratégico para os próximos 50 anos e já firmaram parcerias com entidades privadas, como a Google, além da criação do Fundo Carbono Suruí, que tem como base o sequestro de carbono e a comercialização de crédito de carbono, que em um futuro próximo destinará recursos nacionais e estrangeiros para os índios.
Sua articulação tem garantido destaque internacional, tendo sido eleito pela revista norte americana Fast Company como uma das 100 pessoas mais criativas do mundo, em uma lista que inclui apenas dois brasileiros: ele e Eike Batista.  No entanto, sua luta em manter a floresta em pé também tem trazido ameaças de morte, o que o levou no mês passado a buscar apoio da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDHPR).
Almir Suruí falou ao Diário sobre seus projetos e outros assuntos, durante um seminário em Porto Velho, que discutiu a criação da lei estadual de mudanças climáticas para o Estado.
Diário: Como a criação da Lei pode de maneira prática contribuir para a redução dos danos ao meio ambiente?
Almir: A maior dificuldade que enfrentamos hoje, no Estado de Rondônia, é que ainda não temos essa política estadual que define como estarão atuando junto com o governo Federal e municípios. Então isso traz grandes dificuldades para a gente, porque o Estado também tem que ter seu regulamento. Hoje temos dificuldade de como inserir [a lei], mas por outro lado o governador tem se posicionado apoiando e mostrando interesse de ajudar a construir as políticas e fazer isso acontecer no Estado. A lei poderia discutir um fundo de mudança climática estadual, onde a gente poderia também estar capacitando e melhorando a profissionalização da população sobre uso dos recursos naturais. Além de dar oportunidade de financiar projetos ambientais, pode estar apoiando a formação da população. Isso vai possibilitar que fique não só no discurso, mas na prática.

Diário: E como se colocam os povos indígenas nestes debates?
Almir: Povos indígenas são diferentes povos. Tem alguns que realmente entendem, outros que têm dificuldade de entender, então não é o mesmo. Mas em geral eu posso entender que com certeza os povos indígenas têm papel importante na conservação e proteção da biodiversidade sobre floresta para fazer o equilíbrio climático. Então é necessário que sejam ouvidos e garantida a participação dos povos indígenas na construção dessa lei rondoniense para a mudança climática.

Diário: Os povos indígenas também têm constantemente lutado pela defesa de seus territórios. Como essa batalha se alinha à defesa do meio ambiente?
Almir: Defesa do território e defesa do meio ambiente é quase o mesmo. Estamos construindo um plano de 50 anos do Povo Suruí, que dentro dele tem vários programas que geram projetos para a sustentabilidade e fortalecimento da economia do povo Suruí. Então se o povo Suruí tem sua economia fortalecida, a gente também ajuda a fortalecer a economia local, nacional e internacional. E assim criamos modelo que pode ser visto a partir da política econômica, o potencial da floresta sobre o fortalecimento econômico mundial.  Esse modelo pode ser inserido e discutido dentro da política monetária nacional, mas aí não depende da gente inserir essa política dentro da política monetária nacional. É papel do governo.

Diário: Recentemente o senhor sofreu ameaças de morte em função do que defende se chocar com interesses de alguns grupos. O que o senhor pode dizer a respeito disso?
Almir: Hoje, poucas pessoas reconhecem o potencial econômico do meio ambiente de maneira sustentável. A maioria acha que desenvolver localmente é desmatar floresta, fazendo ilegalidades. Eu não defendo isso. Eu defendo que a gente precisa ter um plano responsável de médio e longo prazo de uso sustentável da floresta. Não defendo que a floresta tem que ser intocável. Ela tem que ser usada, mas com plano de responsabilidade, porque aí nós estamos garantindo floresta para o futuro, que são nossos filhos e netos. Então o futuro da política, do desenvolvimento, da humanidade depende da nossa ação, mas não conta com a gente, a gente garante para outros. Portanto, essa luta que a gente tem em conjunto, não só Almir Suruí, mas a maioria das lideranças e toda estrutura de governança do povo Paiter. Temos que trabalhar com esse modelo de construir com município, Estado e União para construir um novo modelo de desenvolvimento econômico, que tenha respeito à visão cultural, ambiental e direitos humanos. Quando a gente trava essa discussão em nível local a gente afeta o interesse de algumas pessoas que querem fazer ilegalidades, retirar madeira ilegal de território. Portanto muita gente acha que o fulano está lá atrapalhando a retirada ilegal de madeira, então começa esse mau entendimento. Mas estamos buscando junto com o governo Federal soluções para isso, ameaças e construção de debate. Não sei se posso falar muito sobre isso.

Diário: Recentemente povos indígenas ocuparam o prédio da Funasa em protesto contra o tratamento de saúde. Além disso, várias irregularidades na gestão saúde indígena têm sido denunciadas.  A que o senhor atribui essa situação crítica?
Almir: Eu fico analisando muito quando acontece esse tipo de reivindicação. Hoje eu vejo que o que está acontecendo é falta de gestão. A equipe de gestores não está preparada para fazer gestão dentro do território indígena, porque acredito que existe recurso suficiente para fazer ações, o que falta é gestão administrativa, política e estratégica. Isso precisa ser discutido com líderes e comunidades de povos indígenas, porque trouxe um vício de fazer o plano com alguns indígenas, e isso não é uma gestão transparente. A questão da saúde, ou melhor, de implantar políticas públicas não é atender interesse de fulano ou sicrano, é atender necessidade do povo. Na semana retrasada estivemos em Brasília e pedimos auditoria dos últimos cinco anos do que aconteceu com os recursos da saúde dos povos indígenas, fundo a fundo.

Diário: O senhor é responsável pelo projeto Carbono Suruí, que trata de inserir os povos indígenas no mercado de créditos de carbono. Como isso pode trazer benefício para índios e para o meio ambiente?
Almir: Hoje o projeto Suruí é um dos melhores do Brasil. Isso porque conseguimos envolver o governo. Temos pareceres importantíssimos do governo brasileiro e estadual, criamos uma ferramenta uma metodologia que garantia a melhor participação do nosso povo na construção e gestão que pode vir com o projeto do Carbono Suruí. Com instrumento usamos diagnóstico, plano de gestão, tudo jurídico, baseado no direito internacional e tivemos um consentimento de trabalhar com projeto de carbono. Pela primeira vez na história do Brasil, baseada na convenção 169 [da Organização internacional do Trabalho – OIT], um povo indígena faz consentimento livre, prévio e informado. Então temos ferramenta e criamos um fundo de gestão que vai gerir o recurso que vamos estar recebendo pelo projeto. O fundo vai ser utilizado para receber o recurso e criar critério de como gastar e como ter resultado do que foi gasto dentro do território. Também prevê como podemos dialogar realmente com política monetária internacional. Só assim vamos fortalecer a construção do modelo que queremos que valorize a floresta. Hoje temos o documento de concepção do projeto pronto, além disso, já estamos analisando três contratos de grandes empresas da Europa e dos Estados Unidos, mas é confidencial. Hoje o projeto está na Funai, que deu um parecer favorável, e o Ministério do Meio Ambiente, através do secretário de Mudanças Climáticas, disse que o governo pode utilizar o modelo, oferecendo para outros povos indígenas ou em unidades de conservação, reservas extrativistas.

Diário: A atuação do povo Suruí, através da elaboração do plano de 50 anos ganhou projeção internacional.  O que isso significa para vocês?         
Almir: Isso mostra que nós indígenas somos pessoas comuns, que têm seus ideais, sua missão e como temos capacidade de construir um futuro para o nosso povo. E esse futuro também contribui com a sociedade e por isso tem sido divulgado bastante. Nós não só falamos do povo Suruí, o beneficiário do projeto na localidade é o povo Suruí, mas isso oferece uma visão mais ampla do futuro para o mundo, colocando o Brasil na lista de como está contribuindo na política internacional de biodiversidade, da mudança climática e outra gestão de recursos naturais existentes no nosso planeta. Nós estamos apenas contribuindo com o governo brasileiro a atingir suas metas e suas políticas de ação porque sentimos, sentimos não, somos brasileiros natos e defendemos um Brasil mais do que um político ou um presidente.

Diário: O que o senhor pode dizer a respeito do Novo Código Florestal?
Almir: Achei um desastre, um atraso para o Brasil. Acho que quando a gente trata de código florestal fica preocupado com o futuro da Amazônia brasileira mesmo.  Uma vez sem querer um amigo meu colono me disse: “Almir sabe como a gente consegue desmatar milhares e milhares de quilômetros? A gente vai passando de localidade em localidade e juntando o que cada um tem direito a desmatar e no final é um só”. Se for essas questões de a gente não ter alternativas, só pensar que desmatar é que desenvolve economicamente, eu vejo um desastre. Povos tradicionais da Amazônia, não só indígenas, mas também seringueiros, ribeirinhos, quilombolas, são testemunhas de como a floresta tem um grande potencial econômico que o Brasil não sabe utilizar ainda porque nunca deu oportunidade para estes povos. Se não fosse nossa iniciativa de lançar o plano de 50 anos não teríamos oportunidades de fazer um diálogo tão grande no mundo e no Brasil, se não tivesse capacidade e essa visão de futuro para o nosso povo.
Fonte: Diário da Amazônia